segunda-feira, 31 de março de 2008

Asas

A volta que a chave dava era o limite definitivo entre o mundo e ele. Da porta trancada pra dentro, pouco importava a pouca luz da tarde, quase noite. Era o mais próximo da tranqüilidade sonhada. Recolheu as correspondências, analisando os remetentes e os destinatáro de cada uma enquanto subia as escadas, concluindo que dificilmente haveriam outros destinários em uma casa onde sempre morou sozinho. Acostumado com a solidão das cobranças, nem por engano chegaria uma carta diferente. Com familiares, perdeu contato há tempos. Da porta trancada pra dentro, os passos solitários na velha escada ecoavam no antigo casarão de teto alto, misturados aos gemidos que ele não pôde distingüir se viriam da madeira dos degraus ou das próprias articulações. Ao fim dos degraus, um cabide recebeu o casaco e a boina. Perguntou-se novamente o motivo de ainda não ter se livrado daquela boina e daquele casaco que lhe somavam uns dez anos à aparência. Chegou ao banheiro e ligou a luz, e deu de cara com aquela maldita mariposa e suas asas escuras, sem saber o por quê de ainda não ter se livrado daquele estorvo que lhe fazia indesejável companhia. Então encarou a própria imagem no espelho, perguntando-se novamente o motivo de ainda não ter se livrado daquela solidão que lhe somava uns vinte anos à aparência.
Na fria paz de seu quarto, examinou friamente as correspondências lhe cobrando o contato com o mundo externo, um contato que não queria ter, mesmo que o mundo externo às vezes tentasse de qualquer forma invadir sua solidão, como nessas tempestades repentinas, onde a água testava as trancas de suas portas e janelas. Não gostava de precisar sair de casa. Odiava bancos, odiava o sistema previdenciário, odiava a prestação de serviços básicos, e não parece nada agradável precisar sair de casa para resolver exatamente aquilo que odeia. Encarava aquilo como uma sacanagem da vida para com ele. Não era Deus. Não acreditava em Deus desde a adolescência igualmente solitária, da qual não sentia qualquer saudade ou nostalgia. O hoje sempre foi mais confortável e o conforto de hoje, garantido pelo salário de professor aposentado, era tudo que planejou pra si. Não teve filhos nem foi casado, era extremamente ciumento em relação à sua solidão e não dividiria com ninguém assim tão facilmente. Sua companhia mais duradoura deve ter sido aquela mariposa no banheiro. Meses e meses se passam, e ela continua transitando pela casa. Muitas caminhadas noturnas pela casa já foram interrompidas assustadoramente pelas asas negras do inseto, calculando os momentos mais tranqüilos e inoportunos para assustar o pobre velho. Mas nunca houve tanto motivo assim para abrir mão daquela indesejada companhia, até ontem.
Ao resolver fazer do banheiro sua localização estável, a mariposa se torna o estorvo perfeito para onde o velho canalizaria toda sua ira. Não contente em lhe roubar a solidão, agora a maldita tirava-lhe toda a privacidade. Aqueles olhos cínicos pintados pela natureza nas asas da "borboleta-bruxa" para afastar os pedradores, nunca estiveram tão cínicos. Logo naquele momento tão intimista, de encarar o próprio corpo, velho e enrugado, flácido e rejeitado, eis que surge um maldito inseto irritantemente estático, quase zombando daquele velho. Principalmente quando movimenta suas enormes asas, como quem diz "Eu posso voar, e você?"
Mas a partir daquela noite não haveria mais estorvo, nem cinismo, nem companhia. Ele voltou ao banheiro, agora com a vassoura em punho, decidido a recuperar a solidão lhe tomada à força, por mais irracional que seja o inseto. Ele não era bem vindo ali. Ali estava... Na exata posição que esteve desde ontem, e provavelmente estaria amanhã. O golpe deveria ser certeiro, e foi preparado com cuidado. Então naquele momento, ergueu a vassoura com força e... força demais e... faltou um pouco de equilíbrio e... os ombros encontraram a parede, e todo o resto do corpo desabou pateticamente no chão do banheiro. A vassoura, lançada à frente ainda durante a queda, apenas tocou a asa do inseto, que resolveu voar dali tranquilamente pela porta aberta.
Uma caçada sem precedentes foi realizada pela casa inteira. A mariposa deveria estar em algum lugar dentro da casa, já que as portas e janelas para a rua permaneciam fechadas na tempestade. Nem sinal da intrusa na cozinha, nem no corredor, nem na sala. Só poderia estar no quarto. No quarto DELE. Aquilo era uma afronta à sua cultivada solidão, mais até que o banheiro. Esse crime seria punido com rigor! E sorrateiramente ele entra no quarto, trazendo consigo determinação no olhar e uma vassoura na mão. E então tudo ficou escuro demais pra ser verdade.
Do lado de fora, a tempestade se esvazia. De certo, estes velhos olhos já não aguentam muita claridade. Mas quando a pouca claridade restante é tomada de súbito, e a companhia indesejada permanece odiosamente viva, a Companhia Elétrica do Estado é lembrada com mais ódio ainda. Luzes e ventiladores apagaram. Apenas um piscar de luzes invade o corredor. De onde viria? Foi um sacrifício percorrer a casa na escuridão, até se deparar com a janela piscando luzes psicodélicas demais para um domingo à noite. Antes tivesse usado LSD, pois a origem daquelas luzes era o poste em frente à janela, onde um curto-circuito anunciava uma catástrofe. Da sala vazia era possível ouvir a agitação na rua, aumentando proporcionalmente às chamas que agora tomavam grande parte do poste em frente à casa daquele "velhinho que mora só".
Surge uma sirene ao longe, anunciando o socorro. Pelo vidro da janela foi possível acompanhar o trabalho dos bombeiros, uma ação rápida e eficaz. Logo logo a companhia elétrica chegaria para reativar a energia do poste. E sua missão seria concluída, ou não. Os bombeiros tiraram de algum lugar obscuro a brilhante idéia de apagar o poste com água, o que resolveu a situação por algum momento, mas naqueles trinta minutos entre a ida dos bombeiros (considerando sua missão cumprida) e a chegada dos eletricistas (considerando a missão dos bombeiros uma bela merda), o poste voltou a entrar em curto-circuito, e agora com os fusíveis encharcados, a eletricidade se espalhou e fritou sistema. Era o melhor momento para se preocupar.
As faíscas incendiaram as janelas de madeira. Toda a casa do velho, uma antiga estrutra de alvenaria construída sobre ripas de madeira, também começou a incendiar. O mundo externo invadia aquela casa solitária com uma força absurda, rachando estruturas, derrubando paredes, explodindo e destruindo todo o isolamento que tanto confortava aquele senhor, agora ajoelhado no meio da sala iluminada pelas chamas, sentindo as próprias lagrimas se misturando ao suor do rosto naquele inferno. Vizinhos tentaram avisar os bombeiros. Mas recebiam uma estranha resposta dizendo que "a situação acabou de ser contornada". A própria equipe dos bombeiros achou estranho o fato de um chamado vir do mesmo local onde acabaram de "contornar uma situação", e não voltaram de imediato.
Eles voltariam e contornariam a situação, mas enquanto isso, um velho tentava arrombar de dentro pra fora uma fechadura derretida e danificada pelas chamas. Não havia qualquer ligação ao mundo externo, nem telefone, nem janelas abertas, e o resto da casa também era incendiado rapidamente. O mundo externo lhe destruiu, e lhe abandonou ali na solidão que tanto quis, e nem a tempestade veio tentar entrar agora. Restava uma única ligação com o mundo externo. A maldita bruxa no quarto. O desespero, a vingança e o ódio eram suas companhias agora. Meteu a vassoura em uma labareda, conseguindo assim, uma tocha para avançar heroicamente pela escuridão do corredor e do quarto, que em pouco tempo também seriam tomados pelas chamas. Entrou, e rapidamente localizou a mariposa. Trancou a porta - não cometeria o mesmo erro do banheiro. Foi até a parede furioso, e desferiu um golpe certeiro.
A mariposa voou num espanto, atordoada e em chamas, e descreveu pelo quarto uma trajetória torta e terminal, consumida pelas chamas em pleno vôo, e desabando restos mortais na cama do velho. Ele observou tudo com um heróico sentimento de dever cumprido. Era possível ouvir a sirene dos bombeiros voltando. As queimaduras eram insuportáveis. Eles não entrariam rapidamente na casa, muito menos no quarto, trancado, e os gritos de "tem alguém aí?" não obtiveram resposta alguma. Não havia mais vida ali dentro. Só o velho e sua vingança, olhando para os cínicos "olhos" nas asas da mariposa, agora resumidos a algumas cinzas em sua cama. Era sua pequena vitória contra o mundo externo, mesmo entregue à derrota maior para as chamas ao seu redor. Estranhamente, todos os seus problemas criados por ele mesmo se resolveriam ali naquele quarto dentro de alguns minutos, e assim sozinho, e tão próximo da tão sonhada tranqüilidade, perguntou a si mesmo o motivo de ainda não ter se livrado de si mesmo.


-No dia dessa imagem, o medidor de energia do poste aqui em frente à minha janela foi destruído por um curto circuito.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Nada Enquadrado

Nada de novo na paisagem da varanda. Aliás, nada, de novo. O ateliê continuava lá, preparado para a próxima melhor obra de arte de todos os tempos, recheada de referências intelectuais, ocultas e interpretativas, intelectuais para agrado dos críticos de arte, ocultas para agrado dos apreciadores e interpretativas para agrado dos espaços de discussão artítica, atingindo formidavelmente o gosto do grande público, como em sua obra anterior. Mas o pintor mais cultuado da contemporaneidade agora observa solitariamente a chuva cair no jardim, talvez à espera de que a próxima gota de chuva traga a inspiração que deixou em algum lugar de sua mente conturbada. Semanas literalmente em branco, em frente à tela vazia, alternando o olhar entre o pincel na mão direita e a paleta na mão esquerda, esperando uma resposta para aquele estranho fenômeno. Resposta que obviamente não viria do pincel ou da paleta - ou talvez respondessem um "não".
Eis que de súbito, olhava para o quadro que acabara de realizar sem ao menos perceber. Brilhante. Era seu melhor trabalho. Uma arte que refletia o estado de sua alma nitidamente, quase que podendo ver através de si mesmo. Uma estranha combinação de todas as cores e todas as suas possíveis misturas e texturas, numa abstração estranhamente concreta que fazia todo o sentido ao não fazer sentido algum. Acabara de pintar a representação do Nada. Após chegar a essa conclusão, ficou bastante frustrado. E então subitamente, Nada fazia sentido.
Esse maldito mistério atraiu gente do mundo inteiro à sua porta para observar o novo trabalho. Nada era atraente, misterioso, transformador. Nada era compreensível, e as pessoas sentiam que havia Nada a compreender, talvez por Nada terem entendido. O Nada abrigava uma infinidade de respostas, e isso não se pode negar. Simbolizava tudo ao mesmo tempo, justamente por não simbolizar coisa alguma, o que torrou a paciência dos críticos, dos apreciadores e dos espaços de discussão artística, justamente por não ser possível tecer qualquer comentário sobre... Nada. Isso deixou a obra ainda mais cool, e muito mais cult ainda, o que ocupou o tempo de alguns jornalistas sem assunto novo para seus blogs.
Galerias de o todo planeta fizeram propostas incalculavelmente lucrativas pela obra original, todas previamente recusadas. O pintor sabia que nunca mais pintaria algo igual ao Nada, e Nada realmente mexia com ele. Sua fixação pelo Nada lhe adoecia todo dia, e então ele resolveu se dedicar integralmente ao Nada. Assim como os apreciadores, cada vez em maior número. Uma revolução mundial era estimulada pela representação do Nada, estampando desde camisetas a canecas de chá, inspirando desde artistas plásticos a DJs de psytrance, Nada parecia ter sentido, todas as perguntas levavam ao Nada, como uma espiral da qual as pessoas não fugiriam e uma hora ou outra chegariam ao Nada. Nada era o que todos procuravam, enfim.
A música demonstrou os primeiros sintomas da revolução. Falar sobre Nada esteve na moda durante um bom tempo. Era ao mesmo tempo tão junkie e tão blasé, sem deixar de animar as massas, com variações mínimas de tonalidades e vogais aparentemente ordenadas por alguém muito mal-intencionado, mas na verdade era apenas Nada. Nas pistas mais badaladas da night, bombavam sucessos como o techno dançante "Nada Disso" e o indie-rock "Nada Feito", enquanto as massas micaretavam atrás de algum trio-elétrico ao som de "Nadaê". O cinema veio logo em seguida. Câmeras panorâmicas em planos abertos sobre grandes planícies durante intermináveis minutos valeram vários oscars ao sucesso "Simplesmente Nada" e a continuação "Simplesmente Nada a Ver", cheios de referências ao documentário "Nada a Ver", uma tentativa de tentar explicar o fenômeno do Nada. Fenômeno este responsável pelo "boom" literário que acontecia paralelamente. De repente, qualquer indivíduo semi-letrado que tivesse um amigo editor resolveu que entendia suficientemente sobre Nada, a ponto de publicar isso. "Nada Explicado", "Nada Detalhado" e o infantil "Nada Didático" figuraram entre os dez mais vendidos do mundo durante um bom tempo, até a chegada do best-seller da auto-ajuda "Nada Simples", que deixava qualquer semi-analfabeto a par de tudo que poderia ser o Nada (e vice-versa, talvez).
A "revolução do Nada" atravessou o campo artístico. Para os Historiadores, entramos na "Era do Nada". Para os Sociólogos a sociedade sempre caminhou para o Nada. Para os Filósofos Nada tinha respostas. Para os Químicos, o Nada era a solução perfeita, os Biólogos passaram a crer que o Nada era vital para a existência humana, os Geógrafos encontraram no Nada a explicação para todos os fenômenos de divisão político-territorial do planeta, os Físicos afirmaram que "Nada é Relativo", criando um problemão para os Lingüístas, já tão atarefados em tentar definir o que seria o Nada, provocando desistências e uma onda de depressão coletiva, e por fim os Matemáticos fizeram alguns cálculos e descobriram que o nada é divisível por zero e seria capaz de dividir todos os demais números primos, mas foram acusados de dizer isso apenas para não ficar por baixo e também entraram em depressão.
A igreja foi dizimada pelo nada. Enquanto os evangélicos colidiam contra seus próprios umbigos ao dizer que Nada era coisa do diabo e conseqüentemente anulando o mesmo e eliminando sua causa mor, os católicos não encontraram nenhum mandamento falando sobre isso e resolveram esperar o que o papa ia dizer. Como ele não disse Nada, "Nada" automaticamente se configurou um pecado, o papa foi considerado um auto-herege e conduzido à fogueira por cometer "Nada". Quando o papa seguinte afirmou publicamente que o Nada já estava muito comentado e, por ser venerado acima de deus, era oficialmente pecado, um estado de caos social foi imediatamente instaurado, pois Nada era pecado. Ele tentou voltar a público com o rabo entre as pernas, pedindo por favor uma reinterpretação de sua fala, mas foi infeliz ao finalizar o discurso afirmando que "Nada está acima de Deus", eliminando assim todas as religiões monoteístas e politeístas do mundo, mesmo aquelas que não acreditavam nele e apenas o achavam um cara diplomático. O mundo estava unificado em torno do Nada, a nova religião mundial, e isso não era nada bom, pois o Nada se tornou um excelente motivo e uma excelente desculpa para tudo que se queria fazer, eliminando o poder do Estado, que não podia fazer Nada contra a anárquica vontade popular dos Nadistas, que acusavam o Estado de ser o primeiro propagador do Nada, realizando Nada desde antes desse papo todo. As estruturas sociais e organizacionais se fortaleciam pro Nada, e os valores do Nada eram propagados nas escolas, que já ensinavam Nada desde o ensino básico. E o mundo todo propagava Nada, preservava Nada, educava Nada, produzia Nada e cada vez mais entendia Nada.
Décadas mais tarde, estudiosos preocupados com esse caos social e com seus filhos adolescentes que produziam Nada com extrema precisão, resolveram ivestigar o início de tudo, e vasculharam os quatro cantos do mundo atrás do pintor que, acreditava-se, ter sido o primeiro a representar o Nada e dar início a essa confusão toda. Todos os indícios de sua localização apontavam para direções diferentes, e algumas até opostas entre si. E Nada permanecia de pé, preocupando algumas pessoas mais esclarecidas, que de repente, ou do Nada, viram que diante do Nada, de Nada adiantaria todo o seu esclarecimento, e talvez essa tenha sido a resposta que tanto procuravam, e ao encontrá-la resolveram que Nada era preocupante demais, e abandonaram seu esclarecimento para micaretar atrás de algum trio-elétrico ao som de "Nadaê", após bombar na night agitando com "Nada Disso".
Depois de representar o Nada e mudar os rumos da história, lá estava o pintor, quase centenário, observando solitariamente a chuva cair no jardim, enquanto pensava em Nada. Cansou daquele mundo, onde Nada era mais importante. Aliviou-se por algum momento ao pensar que era culpado por Nada, mesmo sentindo que toda sua vida tinha sido destinada ao Nada, e a pior conclusão a qual se poderia chegar é: Nada foi o melhor que ele pôde fazer. Até que a próxima gota da chuva trouxe a inspiração necessária para a próxima melhor obra de arte de todos os tempos. Seria apenas um ponto. Sentou-se em frente à tela da representação do Nada, fez um ponto no meio, e começou a refletir sobre tudo que estava ali. E subitamente, Tudo estava ali, Tudo feito. E Tudo parecisa ser apenas um ponto no meio do Nada. Após chegar a essa conclusão, ficou bastante frustrado. E então subitamente, Tudo fazia sentido.
Era impossível representar Tudo, ou entender Tudo e até mesmo tentar gostar de Tudo era algo estressante. Chegou a conclusão de que Tudo era insuportável. Trocou o nome do quadro para "auto-retrato" e vendeu por vinte reais.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Aresta

Novamente o sono entala na boca da madrugada. Um pé rapido no chão, o outro já no sapato, e o outro já na calçada, e outro vai no encalço (e é hora de ir descalço porque a vida é atrasada).
Céu novo se abicora, a nuvem cora, a lua rasga, a estrela apaga, o escuro sai na pisada, vem o raio, de soslaio é observado pelo olho grandioso, só espiando o aceso insone se arrumando pra ir na festa, a própria festa, e pinta testa e pinta o rosto, e pinta no desgosto o mais largo dos sorrisos, e lá vai ele colorido, lá vai ele à própria sorte, na sua festa não há morte que derrube essa risada, e não tem nada, e é na pisada, e a mais ninguém interessa o que há por trás riso, não preciso, não procede, e logo o interno cede, hora que a superfície aflora, e chega a hora novamente de brindar na própria festa, e não há palco, nem platéia, na idéia é só sozinho, e pula e canta e dança e ri feliz, de vermelho no nariz e de peruca na cabeça, pra lembrar que nunca esqueça a fantasia que vestiu, e o público sorriu, foi pra casa satisfeito, e rir não é defeito se teu riso não sai no banho, nem sabe se seu tamanho faz parte da fantasia, só sabe que não se cabe de tamanha agonia, e sempre temeu o sonho que o sono lhe lembraria, outra vida não é fato pois é fato que não há vida, então de que adianta o sonho se o sono é a melancolia? Olha só como se acorda se um sol novo nasceria, ainda é madrugada e o sorriso escorre na pia, e a tinta vai pelo ralo, e o ralo engole a alegria, de um sorriso disfarçado de quem é feliz apenas por saber que há um novo dia.

*singela homenagem ao palhaço do ônibus, que rimava a fala e parecia cansado dessa vida

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Égide

Olhou novamente o buraco na parede. Quase lembrava uma luneta, a espessura formava um túnel, e há impressão de que o outro lado é longe, e maior. No meio do túnel um rato agonizando. Do outro lado, o corredor vazio da penitenciária. Dali foi possível ouvir a rebelião de dias atrás. Todos fugiram. Explosões isolaram a ala norte do presídio. Reclamavam da triste situação do prédio em ruínas. Cada vez mais ruínas, após a rebelião. O lado de fora silencioso lhe dava a triste sensação de que fora simplesmente esquecido na solitária. Uma lágrima escorreu de seus olhos cansados, e se juntou as outras dos dias anterioes na suja e mal reparada barba. Desceu o olhar, do buraco para a pia, na mesma parede alguns palmos abaixo, onde lavava o sangue das mãos... Há uma semana ele arranha o muro do fundo da cela, onde tem quase certeza ser mais fino, após os inúmeros testes de som.
O sangue escorria pela pia vindo de dedos deformados pela tentativa de aproveitar a ruína do prédio. Estimativas otimistas previam o fim do trabalho para dois dias, abrindo uma rachadura na parede, mas não sabe se a estrutura do prédio todo aguentaria mais meia hora após as explosões da rebelião. Podia sentir o chão se desfazendo abaixo dos seus pés. Olhou de novo na fenda parede, como um ponto de fuga à imensa dor que sentia nos dedos. Fechou a torneira. Voltou à parede arranhada. Voltou a arranhar, a dor era imensa, contorcia-se de dor, mas arranhava, chutava, mordia, empurrava, chorava de dor, tentava parar e não conseguia, pedia a si mesmo que parasse com aquilo, mas sentia cada vez mais fina a pedra da parede, quando um rompimento brusco na estrutura da parede lhe aliviou todo o sofrimento da última semana.
Voltou à pia fixando o olhar alguns palmos acima, no buraco da parede, onde deveria estar um espelho, mas preferia ver uma esperança de salvação ao seu rosto envergonhado. Lavou o sangue do corpo, descansou pacientemente, sentindo os tremores do prédio em pleno processo de desabamento. Levantou-se pacientemente, analisou a parede rachada, decidiu um ponto fixo no meio da rachadura para apoiar a sola do pé esquerdo, enquanto manteve a direita firme no chão. Um pouco de força, e pronto. Um buraco se abriu. Passou pelo buraco com pressa e aflição, enquanto o prédio todo desabava tranquilamente. Correu pelos corredores vazios e pouco ilumidados por algumas rachaduras nas paredes, denunciando o dia claro do lado de fora, mas os tremores do prédio causavam pânico apenas por sugerir que chegara tão perto e não conseguiria. Até que encontrou uma escada para o andar debaixo, o térreo. Desceu de cara com um corredor que terminaria em uma forte luz vindo do lado esquerdo. Sentia a poeira caindo no rosto, era o teto cedendo à força da gravidade, era a estrutura comprometida e isolada pela defesa civil vindo abaixo. Estrutura evacuada às pressas há dois dias, mas ele restava ali, e chegou ao fim do corredor, dando de cara com o hall de entrada iluminado pelos grandes portões abertos para o dia no lado de fora. Foi em direção a eles, mas dobrou à direita, entrando na secretaria.
Sabia que ali havia um frigobar, viu um quando foi preso e esteve lá. Abriu e... sim, havia água mineral, frutas e um iogurte... tudo em boa conservação, por isso não foi até a cozinha, encontraria tudo estragado... Tomou a água, pegou algumas frutas, e correu, engolindo o iogurte, seguindo de volta ao corredor de acesso ao hall. A luz do portão ficou pra trás, subiu as escadas em ruínas sabendo que não desceria mais, percorreu aqueles corredores pela última vez, jogou a embalagem do iogurte em algum buraco qualquer, percorreu mais alguns corredores igualmente em ruínas e enfim reencontrou o buraco que cavou durante duas semanas. Entrou de novo na cela, foi até a parede, largou as frutas na pia e olhou de novo no buraco. Lá estava o rato, agonizando, com a pata presa há uma semana entre duas pedras tortas por algum abalo causado durante as explosões, incapacitado de sair, e faminto. Um pedaço de maçã carinhosamente semi-mastigado foi colocado em sua frente, e uma metade de uva também, e sua fome estava satisfeita. O prédio desabaria poucos segundos depois, mas ninguém ali seria abandonado.

domingo, 30 de setembro de 2007

Retalhos...

A madrugada parecia abençoar silenciosamente aquela fuga. Quaisquer prazeres humanos, por mais efêmeros que fossem, estavam saciados naquele momento, numa sensação de liberdade tão feroz quanto a própria fuga daquela sexta-feira de lua cheia.
Já nas primeiras horas de sábado, o reencontro com a porta de casa, simbolicamente fechada como se aquele ar pacífico só fosse possível do lado de fora. Relembrou a semana inteira de brigas. O casamento não merecia mais a mesma dedicação dos primeiros meses. Tirou a camisa numa tentativa de se livrar do cheiro da cachaça e do perfume da puta, tirou os sapatos enlameados da periferia da cidade, tirou as meias, e carregou tudo rumo ao cesto de roupas sujas. No caminho, com os pés descalços, sentiu pedaços de papel no chão da sala escura, pedaços grudentos e sensivelmente retalhados.
A penumbra do corredor lhe permitiu enxergar que os retalhos eram fotos. Fotos dele, fotos dela e fotos deles. Fotos antigas. A esposa ficara sozinha em casa, e visivelmente dividia o arrependimento pela decisão precoce de dividir a casa, a vida e os problemas que deveriam permanecer individuais. Mas as fotos? Já superaram tanta coisa em sete anos de namoro, idas e vindas, extremos, palavras ditas sem intenção, intenções não ditas em palavras, e uma nostalgia absurda daqueles primeiros meses registrados em fotos sempre confortáveis e reconfortantes nas piores situações. Estavam ali, em retalhos.
Da entrada de casa, durante todo o corredor, o caminho de retalhos levara um confuso jovem marido ao quarto, ao encontro de sua esposa. Ela estava ali na cama, com os olhos vidrados em algum lugar não físico, embora isso não fosse o que mais chamou a atenção naquele momento. A pouca luz do corredor lhe permitiu identificar o sentido daqueles recortes, como uma trajetória fracassada, as fotos retalhadas estavam estranhamente organizadas cronologicamente. O casamento estava ali, retalhado ao pé da cama. Ligou a luz ainda alcoolizado e confuso. Sua jovem esposa estava completamente ensanguentada sob o lençol branco igualmente ensanguentado, na cama igualmente ensanguentada, segurando uma tesoura igualmente ensanguentada.
O que aconteceu? QUE DIABOS VOCÊ FEZ? FALA COMIGO, O QUE VOCÊ FEZ?
Uma voz serena e quase sussurrada lhe respondeu, fixando algum ponto interessantíssimo da parede. "Está tudo bem meu amor. Eu não fiz nada demais. Quem fez foi você." O desespero lhe levou ao encontro do corpo da esposa, num abraço que quase pediu perdão, talvez clemência, mas o abraço pedia à esposa só uma explicação coerente sobre o passado retalhado no chão, e pedia a Deus uma relação não mortal entre o sangue e a tesoura. Sentiu que era mais álcool do que desespero, tentou se acalmar, olhou nos olhos distantes da esposa, Olha pra mim, por favor, o que aconteceu, me perdoa, o que eu fiz, o que você fez, o que nós fizemos, o que nós não fizemos, não me deixa sozinho aqui. "Pára com isso, eu não vou morrer, já fiz os curativos necessários, embora não ache que eles sejam capaz de curar metade do que eu esteja sentindo."
Sentindo um nojo incrível de si mesmo, ele largou o corpo da esposa sobre a cama, retirou-lhe o lençol revelando uma nudez agressiva, muito arranhada e machucada, e com um curativo sobre a genitália visivelmente mutilada. Uma lágrima de piedade lhe desceu do rosto contra a vontade, mas veio seguida de uma lágrima ainda maior de desconforto, e logo algumas lágrimas de desespero. Não tinha mais nenhum perdão pra pedir. Trocaram tantas ofensas na última semana que qualquer elogio nostálgico, por mais sincero que fosse, não seria no tom forçadamente honesto de um xingamento. A serenidade tomou conta do lugar. Sentaram-se lado a lado na cama, ela olhava fixamente algum lugar na estante. E com um estranho alívio, desabafou tranquilamente:
"Eu não me arrependo de ter casado contigo, rapaz. Não me arrependo de ter arriscado uma vida ao teu lado. Não me arrependo de tentar cortar o passado, mas com a tesoura não foi possível. Só que eu não vou mais fingir que está tudo bem. Não vou negar que sinto falta de quando acreditava em ti, mas sinto muito mais falta de quando acreditava em mim. Chega de mutilação moral, rapaz, talvez mutilação física resolva. Se eu não posso escolher entre ser feliz ou não, escolhi que não quero mais ter prazer contigo. E quero que tenhas certeza disso, e espero ter alguma certeza também. Se isso é egoísmo, orgulho, impulso ou doença, eu não sei, mas não quero mais te dar nenhuma a impressão de que me fazes bem."
O silêncio dali foi pior do que qualquer suicídio ou assassinato ou choro desesperado. Ela tranquilamente colocou a tesoura sobre o criado mudo, pegou o controle remoto e ligou a TV. "Por favor, não se sinta responsável por essa auto-mutilação. Sinta-se responsável pelas anteriores, aliás, as piores. Aquelas durante a madrugada, chorando no travesseiro,querendo resolver nossos pequenos problemas quando ainda eram pequenos, e sentindo a tua falta quando sabia que estavas dentro de alguma puta por aí. Aquilo sim era dor. A de hoje eu prefiro encarar como solução paliativa... Além de puta, Já comestes algo hoje? Er, ironicamente, tem picadinho na geladeira."
Ele ainda estático, sem saber lidar com aquela culpa ou mesmo se a merecia, encostou a cabeça no ombro dela e recebeu um afago carinhosamente frio no rosto, enquanto assistiam o jornal noticiar mais um assasinato ali próximo da casa deles. "Esse mundo tá doente, né amor?" "é..."

sábado, 25 de agosto de 2007

Gris

Entre a madrugada e a manhã, a mente dos insones ainda não sabe se já será hoje ou ainda era amanhã. Pouco importa, a garrafa está vazia. Nenhum lugar vende cachaça nesse horário. E se vende, nenhum lugar vende cachaça fiado. Não nesse horário. Tanto faz, o bolso está vazio. Ninguém num raio de um quilômetro me emprestaria dinheiro. Aliás, ninguém num raio de um quilômetro. É triste essa vida solitária de nômade bebum sem destino em fim de madrugada. Aliás, é triste essa vida solitária.
A praça nunca esteve tão grande e deserta. Os monumentos e os teatros nunca estiveram tão imponentes, em especial aquele rosa e imponente, e todo aquele verde imponente do mato, tudo transmite uma triste sensação de inferioridade. Ora, não é manhã nem madrugada, não é hora de amaldiçoar a própria existência, teremos um dia inteiro pra isso. Aliás, não é manhã nem madrugada, não é hora definitivamente, não é tempo, é penumbra, é um gris azul-cinzento e incômodo que não decide se deixa ou não deixa ver, se vem ou não vem o dia. Aiás, é hora de amaldiçoar a própria existência sim.
Não há dinheiro, nem cachaça, nem dinheiro pra cachaça, mas há fome, porém se houvesse dinheiro, haveria cachaça, e ainda assim haveria fome, então seria melhor resolver antes da cachaça o problema da fome. Ou do dinheiro. Caminhando pela praça, vejo as primeiras almas vivas. Ou só almas, ou só vivas, ou nem coisa ou outra, estão embriagadamente chapados. Não, não são vivas. Mas devem ser almas. Mas não devem ter dinheiro. Mas devem ter fome. Ei, vocês têm cachaça? Hã? Ok! Sim, continuemos. O hotel tem ricos turistas estrangeiros que devem ter dinheiro, pois são ricos e estrangeiros, logo turistas. Um deles chega de táxi, é a minha chance, ele está com uma mulher, brasileira, vestida como uma puta, maquiada como uma puta, e se comporta como uma puta. É apenas uma brasileira. Moço, o senhor por acaso teria um trocado... tipo money saca? Tenho fome... Hã? Uél o quê, rapaz? ("Não liga pra ele, quer dinheiro pra cachaça"). Ei sua puta, cala a boca, to falando com o gringo aqui. Ei caras me larguem, eu não vou invadir o hotel, tá bom tá bom, já to saindWWWOOOOAAAAAiiicaralho! To indo, rapá!
Sei, é um horário um tanto arriscado pra se invadir o hotel mais famoso da cidade em busca de dinheiro. Será que eles acreditariam no papo da fome? Mas com esse bafo de cachaça? Enfim... Sigo contra a avenida... Poucos carros por aqui esse horário. Lojas, padarias, mendigos, postes em curto-circuito queimando e escurecendo a rua... Saudades da energia instável da minha casa fudida e remendada no conjunto... Agora foda-se. Arrepender-se, só depois da fome e da cachaça, não necessariamente nessa mesma ordem. Ah, os correios. Eu poderia mandar uma carta pra ela, dizer que estou com saudades e que eu voltaria atrás. Mas com certeza ela sentiria o cheiro de cachaça e rasgaria o papel antes de ler o "eu voltaria atrás". Eu nem queria mesmo. Piranha maldita.
Já posso ver o rio. Eu adoro essa cidade por isso. Se tudo der errado, você ainda tem o rio. Seja pra receber essa brisa suave, seja pra se afogar de uma vez por todas. Mas se tudo que mais incomoda for aquela sensação de ter deixado algo pra trás, nenhum afogamento resolveria. E que madrugada infernalmente quente o rio escolheu pra não soprar nenhuma maldita brisa. E que madrugada infernalmente fria que não arrumo uma cachaça! Resoveremos todos os problemas de uma vez, esquecendo todas as sensações possíveis, a de perda, a de calor, a de frio, a de angústia, vejam porquê eu amo tanto a cachaça, ela tem um poder incrivelmente eficiente de corresponder todas as expectativas nela depositadas, como não conseguem nem o rio, nem a maldita piranha, nem o gringo e sua puta e nem os bebuns (ok, eu me incluo aqui). Ah sim, claro. O gris azul-acinzentado cumpre todas as expectativas. Tecnicamente não é ontem, mas também não tem cara de hoje, logo é o mais próximo que chegaremos do tão sonhado e idealizado amanhã. Pessoas como eu precisam do amanhã. Pessoas como eu precisam de dinheiro. Pessoas como eu precisam de cachaça.
Quase rio. Posso descer a famosa escadinha até tocar a água. Isso não resolveria nada e não tem nenhum sentido prático no que diz respeito à resolução de minhas lamentações, mas deveria ser poético. Bom, não foi. Volto à rua, agora molhado. Posso voltar pela avenida na qual vim, mas posso seguir por esta outra avenida deserta que termina no mercado. No mercado tem pessoas, comida e cachaça. É um bom destino. Enquanto ando, posso me ver refletido nas paredes de vidro dos enormes galpões do centro turístico que acompanha a beira do rio até o mercado. Engraçado rodear este lugar, molher os pés no mesmo rio que lhe banha e por várias vezes acordar bêbado em sua calçada, mesmo sem nunca ter entrado nessa porcaria. É perfeito para gringos trazerem suas putas, mas para os bebuns só resta visitar sua calçada (ou o rio, no caso de optar pelo afogamento). Já posso ver as primeiras luzes do que seria a manhã, mas ainda não amanhã, pois eu nem dormi. Então, ainda no clima gris cinza-azulado deste fim de madrugada, eu chego ao mercado, acenando para alguns feirantes conhecidos, alguns colegas bebuns e algumas putas que não arrumaram estrangeiros.
A cidade acorda aos poucos, a movimentação começa no mercado, e por um momento eu quase me sinto acolhido quando vejo pessoas. Mas volto a me sentir sozinho quando ninguém quer me dar dinheiro, nem comida e nem cachaça. Os pescadores chegam do rio com seus barcos, com seus peixes e com sua cachaça. Eu queria só um gole pra esquecer a fome e dormir tranquilo. Mas é confortante à minha pessoa ver que mais pessoas me fazem companhia neste "momento amanhã" de fim de madrugada gris azul-cinzenta e quase dia. Os feirantes, as putas e os pescadores precisam deste "amanhãzinho" tanto quanto eu. Esse momento deve durar uns trinta minutos. Costumo ver a hora só no relógio da praça. É o exato momento em que os primeiros raios do dia me lembram da necessidade de comer. A solidariedade alheia é algo difícil de se depositar expectativas, nem tanto quando se quer comida, mas evidente quando se quer cachaça. Sinto o cheiro dos peixes. Isso me deixa com muito mais fome. E então vejo o relógio. Sei que tudo acaba e começa ali.
É um novo dia, e com ele vêm os primeiros trocados das primeiras almas caridosas, nem tanto caridosas, mas ainda assim almas. Ainda não é o suficiente para um café da manhã reforçado, mas já é o suficiente pra cachaça. Posso tomar uma dose logo, pra amenizar os efeitos da fome. Sim, é isso. A primeira dose do dia logo faz efeito na barriga vazia. Uma sensação incômoda que o alcoolismo traz é que não vai curar as amarguras, sempre amenizando, sempre amenizando, sempre amenizando. Ameniza a saudade de casa, da piranha e da alimentação saudável. Um ou outro lanchinho por aí. E mais cachaça. Posso pedir mais um pouquinho. E mais cachaça. Minha situação é realmente digna de pena. E de cachaça. Ninguém tem realmente nada a ver se a melhor forma de viver que achei foi viver de amenidades. E de cachaça. E não saio mais daqui, nem adianta, pois eu escolhi e me acomodei com este mar de lama. E de cachaça.
Uma hora acaba, ou a vida ou a cachaça. O ruim é que sempre a cachaça acaba antes, e acaba sempre quando não tenho mais dinheiro e não tenho mais ninguém na rua pra pedir. Putz, o dia passou rápido. Nem vi. Nem vejo mais, nem conto mais, nem percebo mais. Só volto a perceber quando o efeito passa. Só, volto a perceber. Continuo com fome e sem dinheiro. E sem perspectivas. Nem sei se dormi, se tomei banho, se fui ao banheiro, se achei alguém conhecido, se me acharam alguém conhecido... Estamos aqui a sós, de novo, eu e o gris sombrio que não será ontem e nem foi hoje, mas por ora, tudo que eu preciso é deste pequeno pedaço de amanhã. E de cachaça...

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Crisântemo

...
Há algo de perturbador no silêncio dos próprios passos. Principalmente quando este é o único e inevitável som no lugar, mesmo com o ruído da chuva engrossando na madrugada, no cimento, na terra e no mármore das lápides, e no ritmo mórbido da sola dos sapatos se chocando com o cimento, com a água e com o silêncio do lugar. Mesmo assim, perdura um estranho silêncio. É como se cada rosto das fotos gritasse por socorro, ou por perdão, ou por arrependimento - este sim sincero, não aquele ainda em vida e diante das mesmas cruzes que depois guarneceriam seus túmulos, quase uma vingança pelo falso arrependimento. Um lugar ornamentado por estruturas caríssimas, praticamente ruínas, Anjos, Santos e Marias em erosão, inertes na chuva como quem nada pode fazer por aqueles ali enterrados. Comove o cheiro da terra molhada, nos lembrando sem piedade alguma que independente das diferenças sociais que acima do solo determinam o ornamento de seus túmulos, todos compartilham a mesma terra barrenta e os mesmos vermes que nela habitam. Todos resumidos à mesma cadavérica condição de putrefação. E presentados com belas e vivas flores, que dali a alguns dias também apodrecerão diante das condições normais de temperatura e pressão, como se fossem contaminadas pela morbidez de um lugar onde não há e não pode haver vida, mesmo que na chuva exalem um confortável aroma de esperança. Ele já se acostumou com esse cheiro. E de repente, se percebeu caminhando novamente entre as lápides, com um ramo de crisântemos na mão direita e a mão esquerda segurando um inútil guarda-chuva preto, que não lhe impediu de estar encharcado pela insistente chuva torta daquela madrugada de inverno. Ouviu em algum lugar que crisântemos são flores apropriadas para velórios, enterros e túmulos, talvez porque seja uma flor que resista a várias mudanças de temperatura. Este é realmente um lugar para resistentes. Ali estão vários e vários crisântemos, apodrecendo lentamente. Certa vez, Florbela Espanca disse:
"Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos"
Deve mesmo ser triste representar a tristeza e a dor. Isto tudo se torna tão relativo por aqui. Estes passos rumo ao túmulo, esta chuva engrossando, este sol nascendo no fim da madrugada, até estes crisântemos são relativos. Aliás, por sua semelhança com um sol nascente a flor foi adotada como símbolo nacional no Japão quando trazida pelos budistas da China, onde representava o distintivo do exército, e logo se tornou o símbolo do Império Japonês, conhecido como o "Trono do Crisântemo". Reza a lenda que uma pétala da flor, no fundo de uma taça de vinho, traria longevidade e saúde. Nossa cultura preferiu herdar a crença européia de associar o crisântemo à morte. Ali naquele momento pareceu apropriado refletir se vale a pena deixar aquele ramo de crisântemos na sepultura, como faria até então. Uma flor que n'outros cantos é associada à justiça e à nobreza, um avatar da realeza na Ásia, ou que representa a amizade pela sua resistência, ou que na América Central é um gesto explícito de amor e paixão, por quê deve ser obrigatoriamente atribuída à condolência e à dor? Aliás, por que a morte é atribuída à condolência e a dor? Isso é tão cultural quanto as diversas representações do crisântemo, uma flor que ninguém quer no seu perfume, porque seu cheiro lembra cemitério e morte. E todos estes crisântemos aqui deixados? Um silêncio toma o lugar. A chuva parou. Os passos não fazem mais barulho. Sim, ele está parado, a alguns metros da sepultura que presentearia com crisântemos, olhando para as flores na mão, encharcado pela chuva e aos poucos iluminado pelos primeiros raios de sol que coloriam aquelas flores tão cinzas há tão pouco tempo. São as mesmas flores, com as mesmas pigmentações. É preferível encarar desta forma... Olhou uma última vez para a sepultura. Viu seu nome pela última vez, viu sua foto ainda novo, a lembrança do acidente veio sólida como se pudesse sentir de novo aquela dor, e lembrou de todo o futuro que não viveria a partir dali. Olhou de novo para os crisântemos. Sim, este seria um troféu de ouro a si mesmo, um prêmio simbolizando que pode haver uma outra forma de encarar aquele momento que não seja através da dor e do sofrimento. Dirigiu-se até a própria sepultura, largou o guarda-chuva, colocou o ramo de crisântemos, virou-se de costas e caminhou tranquilamente, sabe-se lá pra onde, já não importa mais, o som dos passos já não perturba a mais ninguém.


A palavra crisântemo significa "flor dourada", vindo do grego "chrysos" (ouro) e änthemon" (flor).