Asas
A volta que a chave dava era o limite definitivo entre o mundo e ele. Da porta trancada pra dentro, pouco importava a pouca luz da tarde, quase noite. Era o mais próximo da tranqüilidade sonhada. Recolheu as correspondências, analisando os remetentes e os destinatáro de cada uma enquanto subia as escadas, concluindo que dificilmente haveriam outros destinários em uma casa onde sempre morou sozinho. Acostumado com a solidão das cobranças, nem por engano chegaria uma carta diferente. Com familiares, perdeu contato há tempos. Da porta trancada pra dentro, os passos solitários na velha escada ecoavam no antigo casarão de teto alto, misturados aos gemidos que ele não pôde distingüir se viriam da madeira dos degraus ou das próprias articulações. Ao fim dos degraus, um cabide recebeu o casaco e a boina. Perguntou-se novamente o motivo de ainda não ter se livrado daquela boina e daquele casaco que lhe somavam uns dez anos à aparência. Chegou ao banheiro e ligou a luz, e deu de cara com aquela maldita mariposa e suas asas escuras, sem saber o por quê de ainda não ter se livrado daquele estorvo que lhe fazia indesejável companhia. Então encarou a própria imagem no espelho, perguntando-se novamente o motivo de ainda não ter se livrado daquela solidão que lhe somava uns vinte anos à aparência.
Na fria paz de seu quarto, examinou friamente as correspondências lhe cobrando o contato com o mundo externo, um contato que não queria ter, mesmo que o mundo externo às vezes tentasse de qualquer forma invadir sua solidão, como nessas tempestades repentinas, onde a água testava as trancas de suas portas e janelas. Não gostava de precisar sair de casa. Odiava bancos, odiava o sistema previdenciário, odiava a prestação de serviços básicos, e não parece nada agradável precisar sair de casa para resolver exatamente aquilo que odeia. Encarava aquilo como uma sacanagem da vida para com ele. Não era Deus. Não acreditava em Deus desde a adolescência igualmente solitária, da qual não sentia qualquer saudade ou nostalgia. O hoje sempre foi mais confortável e o conforto de hoje, garantido pelo salário de professor aposentado, era tudo que planejou pra si. Não teve filhos nem foi casado, era extremamente ciumento em relação à sua solidão e não dividiria com ninguém assim tão facilmente. Sua companhia mais duradoura deve ter sido aquela mariposa no banheiro. Meses e meses se passam, e ela continua transitando pela casa. Muitas caminhadas noturnas pela casa já foram interrompidas assustadoramente pelas asas negras do inseto, calculando os momentos mais tranqüilos e inoportunos para assustar o pobre velho. Mas nunca houve tanto motivo assim para abrir mão daquela indesejada companhia, até ontem.
Ao resolver fazer do banheiro sua localização estável, a mariposa se torna o estorvo perfeito para onde o velho canalizaria toda sua ira. Não contente em lhe roubar a solidão, agora a maldita tirava-lhe toda a privacidade. Aqueles olhos cínicos pintados pela natureza nas asas da "borboleta-bruxa" para afastar os pedradores, nunca estiveram tão cínicos. Logo naquele momento tão intimista, de encarar o próprio corpo, velho e enrugado, flácido e rejeitado, eis que surge um maldito inseto irritantemente estático, quase zombando daquele velho. Principalmente quando movimenta suas enormes asas, como quem diz "Eu posso voar, e você?"
Mas a partir daquela noite não haveria mais estorvo, nem cinismo, nem companhia. Ele voltou ao banheiro, agora com a vassoura em punho, decidido a recuperar a solidão lhe tomada à força, por mais irracional que seja o inseto. Ele não era bem vindo ali. Ali estava... Na exata posição que esteve desde ontem, e provavelmente estaria amanhã. O golpe deveria ser certeiro, e foi preparado com cuidado. Então naquele momento, ergueu a vassoura com força e... força demais e... faltou um pouco de equilíbrio e... os ombros encontraram a parede, e todo o resto do corpo desabou pateticamente no chão do banheiro. A vassoura, lançada à frente ainda durante a queda, apenas tocou a asa do inseto, que resolveu voar dali tranquilamente pela porta aberta.
Uma caçada sem precedentes foi realizada pela casa inteira. A mariposa deveria estar em algum lugar dentro da casa, já que as portas e janelas para a rua permaneciam fechadas na tempestade. Nem sinal da intrusa na cozinha, nem no corredor, nem na sala. Só poderia estar no quarto. No quarto DELE. Aquilo era uma afronta à sua cultivada solidão, mais até que o banheiro. Esse crime seria punido com rigor! E sorrateiramente ele entra no quarto, trazendo consigo determinação no olhar e uma vassoura na mão. E então tudo ficou escuro demais pra ser verdade.
Do lado de fora, a tempestade se esvazia. De certo, estes velhos olhos já não aguentam muita claridade. Mas quando a pouca claridade restante é tomada de súbito, e a companhia indesejada permanece odiosamente viva, a Companhia Elétrica do Estado é lembrada com mais ódio ainda. Luzes e ventiladores apagaram. Apenas um piscar de luzes invade o corredor. De onde viria? Foi um sacrifício percorrer a casa na escuridão, até se deparar com a janela piscando luzes psicodélicas demais para um domingo à noite. Antes tivesse usado LSD, pois a origem daquelas luzes era o poste em frente à janela, onde um curto-circuito anunciava uma catástrofe. Da sala vazia era possível ouvir a agitação na rua, aumentando proporcionalmente às chamas que agora tomavam grande parte do poste em frente à casa daquele "velhinho que mora só".
Surge uma sirene ao longe, anunciando o socorro. Pelo vidro da janela foi possível acompanhar o trabalho dos bombeiros, uma ação rápida e eficaz. Logo logo a companhia elétrica chegaria para reativar a energia do poste. E sua missão seria concluída, ou não. Os bombeiros tiraram de algum lugar obscuro a brilhante idéia de apagar o poste com água, o que resolveu a situação por algum momento, mas naqueles trinta minutos entre a ida dos bombeiros (considerando sua missão cumprida) e a chegada dos eletricistas (considerando a missão dos bombeiros uma bela merda), o poste voltou a entrar em curto-circuito, e agora com os fusíveis encharcados, a eletricidade se espalhou e fritou sistema. Era o melhor momento para se preocupar.
As faíscas incendiaram as janelas de madeira. Toda a casa do velho, uma antiga estrutra de alvenaria construída sobre ripas de madeira, também começou a incendiar. O mundo externo invadia aquela casa solitária com uma força absurda, rachando estruturas, derrubando paredes, explodindo e destruindo todo o isolamento que tanto confortava aquele senhor, agora ajoelhado no meio da sala iluminada pelas chamas, sentindo as próprias lagrimas se misturando ao suor do rosto naquele inferno. Vizinhos tentaram avisar os bombeiros. Mas recebiam uma estranha resposta dizendo que "a situação acabou de ser contornada". A própria equipe dos bombeiros achou estranho o fato de um chamado vir do mesmo local onde acabaram de "contornar uma situação", e não voltaram de imediato.
Eles voltariam e contornariam a situação, mas enquanto isso, um velho tentava arrombar de dentro pra fora uma fechadura derretida e danificada pelas chamas. Não havia qualquer ligação ao mundo externo, nem telefone, nem janelas abertas, e o resto da casa também era incendiado rapidamente. O mundo externo lhe destruiu, e lhe abandonou ali na solidão que tanto quis, e nem a tempestade veio tentar entrar agora. Restava uma única ligação com o mundo externo. A maldita bruxa no quarto. O desespero, a vingança e o ódio eram suas companhias agora. Meteu a vassoura em uma labareda, conseguindo assim, uma tocha para avançar heroicamente pela escuridão do corredor e do quarto, que em pouco tempo também seriam tomados pelas chamas. Entrou, e rapidamente localizou a mariposa. Trancou a porta - não cometeria o mesmo erro do banheiro. Foi até a parede furioso, e desferiu um golpe certeiro.
A mariposa voou num espanto, atordoada e em chamas, e descreveu pelo quarto uma trajetória torta e terminal, consumida pelas chamas em pleno vôo, e desabando restos mortais na cama do velho. Ele observou tudo com um heróico sentimento de dever cumprido. Era possível ouvir a sirene dos bombeiros voltando. As queimaduras eram insuportáveis. Eles não entrariam rapidamente na casa, muito menos no quarto, trancado, e os gritos de "tem alguém aí?" não obtiveram resposta alguma. Não havia mais vida ali dentro. Só o velho e sua vingança, olhando para os cínicos "olhos" nas asas da mariposa, agora resumidos a algumas cinzas em sua cama. Era sua pequena vitória contra o mundo externo, mesmo entregue à derrota maior para as chamas ao seu redor. Estranhamente, todos os seus problemas criados por ele mesmo se resolveriam ali naquele quarto dentro de alguns minutos, e assim sozinho, e tão próximo da tão sonhada tranqüilidade, perguntou a si mesmo o motivo de ainda não ter se livrado de si mesmo.
-No dia dessa imagem, o medidor de energia do poste aqui em frente à minha janela foi destruído por um curto circuito.


